Ligação aérea Portugal/China – o problema de sempre e a esperança actual

O título é do Expresso mas poderia ser de outros jornais: “TAP está a negociar voos directos para a China”. Neste post situamos a dificuldade de voos directos entre os dois países, esclarecemos o projecto da Capital Airways e temos reservas ao entusiasmo de David Neleman.

*Rota directa China/Portugal – o problema de sempre
A ideia de uma rota aérea entre Portugal e a China tem mais de um quarto de século e começa com o desastre operacional, económico e financeiro da operação da TAP Lisboa/Macau. Este merece post especifico que não tardará.

O problema de sempre é encontrar fora de Portugal a procura que alimente uma operação rentável que implica vários voos por semana – é óbvio que o tráfego outbound de Portugal é mínimo.

Aí por 1994, a rota Lisboa/Macau é apoiada pela criação da Air Macau que ligava várias cidades a Macau e funcionaria como feeder do longo curso. Todo este projecto foi geringonça política que rapidamente se desengonçou com prejuízo importante para a TAP e pago pelos portugueses.

Com mais ou menos profissionalismo, temos sempre uma rota que aterra na ponta Oeste da Europa, continente em que há vários hubs com rotas competitivas para a Ásia. Sem falar das companhias do Médio Oriente. Por outras palavras

-o tráfego outbound da China terá Portugal como destino e por muito atractivo que o País possa ser, não chega para rentabilizar a rota.

O cenário fica mais risonho com uma companhia chinesa a tomar o risco e alimentar o hub de Lisboa. É isto que excita David Neeleman.

*Dois voos semanais da Capital Airways
Sobre o projecto da Capital Airways sabemos que

-“Os voos serão operados pela Capital Airlines, detida pela HNA, a partir de Hangzhou, a menos de 200 quilómetros de Xangai. O pedido de autorização deu entrada na Administração de Aviação Civil da China (CAAC) há alguns meses, mas só recentemente foi comunicada a autorização ao Governo e ao supervisor português, a Autoridade Nacional da Aviação Civil.” (1).

A decisão empresarial não é fácil e está emperrada no imbróglio político e administrativo nacional e europeu, sobre o acordo bilateral de 1999 sobre trafego aéreo entre Portugal e China.

Há indicações de ser possível obter uma autorização da ANAC e informação contraditória sobre ser uma operação regular e primeiro passo de mais frequências ou voos charter de grupos de turistas.

*O interesse da TAP na rota Portugal/China – a esperança actual
A TAP como a conhecemos depende do hub intercontinental de Lisboa, muito dependente do Brasil e a sofrer com os males da economia, sociedade e política do chamado país irmão.

Com pragmatismo, acordo com Jet Blue e conhecimento do mercado dos EUA, David Neeleman lança rotas entre que o liguem a Lisboa e destino Portugal. Não encontramos referência a tráfego com destino à Europa, do género voar via Lisboa para Paris e regressar de Londres com conexão por avião ou comboio.

Neste quadro uma companhia chinesa a operar a rota e a alimentar o hub para a América e África seria ouro sobre azul (sem jogo de palavras com a Azul).

*Declarações de David Neeleman sobre rota China/Lisboa
O Expresso informa que o grupo chinês HNA “prepara-se para lançar uma rota para Portugal, com dois voos semanais”. No texto, destaca que “a TAP quer mais”, e informa que Neeleman “diz estar a tentar que haja um voo diário entre Lisboa e a China ate ao final do ano”. Por fim, cita Neeleman:

-”seria fácil para eles (HNA) e muito bom para a TAP. Temos 75 ligações por semana para África, Brasil, EUA e Europa para distribuir os voos que venham cheios de Pequim”, e ”eles estão abertos a essa possibilidade”. (2).

O título do Jornal de Negócios fala por si:  David Neeleman: “Precisamos de um voo diário para a China”. Segundo o jornal,

-“O arranque de voos diários entre Portugal e a China faz parte dos desejos de David Neeleman, []O responsável adiantou que é um tema que tem estado em cima da mesa e tem sido discutido com o HNA, accionistas chineses do consórcio: "Falámos com eles ontem (sexta-feira)", disse Neeleman, sublinhando que ainda não está nada fechado.” (3).

*Em síntese
Em síntese, temos o problema de sempre, o projecto de um primeiro passo concreto e a esperança actual de David Neeleman convencer a HNA a assegurar uma operação de voos regulares e boa frequência semanal (diária?) e que assegure passageiros para o hub intercontinental de Lisboa.

Uma coisa nos parece certa: David Neeleman é a melhor pessoa para negociar com o parceiro chinês e tal só é possível com uma TAP privada, mas por agora tudo o que sabemos é o que DN deseja. Entre desejos e realidade, qual a distância?


A Bem da Nação

Lisboa 14 de Junho de 2014

Sérgio Palma Brito


Notas
(1)Ver
2016.06.03.Publico.VooDirectoChina
Chineses da TAP autorizados a lançar primeiro voo directo para Portugal

(2)Expresso, caderno Economia, 11 de Junho de 2016.

(3)Jornal de Negócios online em 12 Junho 2016.


Pare! Olhe! Escute! Resultados das empresas do Grupo TAP entre 2003/2015

Consta que o Parlamento se ocupa hoje do que o mainstream imagina serem os problemas da TAP. Aproveitamos a deixa para informar os leitores sobre a situação dramática a que a TAP chegou, a negação da realidade que a isso a conduziu e a parceria estratégica com o Estado que a pode salvar.

*Conhecer o que está em causa – resultados do Grupo TAP
Para princípio de conversa e de qualquer ângulo que se aborde a TAP, não podemos ignorar esta singela dimensão do desastre que a espreita:

-o valor do ‘resultado líquido acumulado’ entre 2003/2015 da TAP e das outras empresas do Grupo aqui revelado pelo gráfico seguinte (1):

Gráfico 1 – Grupo TAP, resultado líquido acumulado entre 2003/2015
(€milhões)




Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais

O factor mais decisivo na formação destes resultados reside na negação da realidade do mercado e regulação em que a TAP actua por todos os que tiveram poder para intervir na empresa.

*Qual realidade de mercado e regulação é negada desde 1993?
Com o 25 de Abril a TAP perde a função de soberania e metamorfoseia-se na fábula com duas faces da ‘transportadora aérea nacional’:

-modelo de negócio irresponsável: ‘o Estado paga’ permite à empresa receber fundos públicos, acumular prejuízos sistemáticos e não ser objecto da transformação profunda de que carece,

-sublimação da irresponsabilidade: a TAP garante “estabelecer ligações permanentes com as comunidades portuguesas mais significativas” e “com os países de expressão oficial portuguesa”, assegurar “transporte para as regiões autónomas” e ser “dinamizador da actividade turística nacional”.

Em 1 de Janeiro de 1993, a liberalização do transporte aéreo no espaço da então Comunidade Europeia

-transforma a TAP numa transportadora aérea europeia que opera em mercado muito competitivo, aberto à concorrência e sem ajuda do Estado,

-destrói o binómio ‘Estado paga e TAP garante’ em que assenta a fábula da ‘transportadora aérea nacional’.

No ano charneira de 1994, a Comissão autoriza o aumento de capital da TAP no valor actual de €1,4 mil milhões. Em Portugal ninguém leva o assunto a sério, e em 2000 a empresa está de novo à beira da falência que nem sequer o Estado pode evitar. 

O gráfico 2 ilustra o custo anual e o total da factura dos vinte e cinco anos da fábula com duas faces:

-entre 1976 e 2000, o resultado líquido acumulado da TAP, actualizado a valor de 2014, é de €-2,9 mil milhões.

Gráfico 2 – TAP -Resultado líquido do exercício entre 1976/2000
(€milhões, actualizados a 2014)



Fonte: Elaboração própria com base nos relatórios anuais da TAP EP e SA, actualizado pelo índice da Pordata

*Como a realidade continuou a ser ignorada até à exaustão de 2015
Em 2000 e no âmbito da falhada privatização da TAP com a Swissair, o então ministro Jorge Joelho escolhe a equipa de gestores profissionais que evita a falência da empresa e a gere (ou, melhor, aguenta) até hoje.

Como a gestão profissional ‘aguenta’ a empresa, o accionista estado ignora dois dos seus deveres elementares: i)impor à gestão da TAP o rigor de remunerar o capital nela investido; ii)capitalizar a empresa e evitar que esta sobreviva em condições inaceitáveis de investimento e tesouraria.

A situação da TAP agrava-se em 2014/2015 e falência volta a ser eminente. Privatizar ou não a TAP consiste de facto em decidir sobre quem a reestrutura e capitaliza: ou o accionista privado segundo as regras do mercado, ou o accionista Estado com desastrosa reestruturação imposta pela União Europeia.

Durante estes quinze anos de vida da TAP SA

-o ‘resultado líquido do exercício acumulado’ da empresa é de €-147,2 milhões, dos quais €-145,7 milhões em 2014 e 2015 (2).

Gráfico 3 – Resultado líquido do exercício entre 2001/2015
(€milhões)



Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais

*O governo do PS e a TAP em 2016
A imposição do governo PS sobre capital e gestão estratégica da TAP perturba o funcionamento normal de uma companhia aérea privada como são quase todas as concorrentes. Este handicap é um facto, mas por muito isenta que seja a intervenção do accionista Estado, há que estar sempre atento ao que impõe.

Algum benefício a presença do Estado terá e já resistiu à primeira tentativa de interferência politica forte na gestão de rotas e do hub de que depende a sobrevivência da TAP.

A maneira como é aceite a serôdia participação da HNA no capital da TAP e as perspectivas que abre são outro teste positivo.

O teste maior desta estrutura accionista é afinal o da própria empresa e tem a ver com a sustentabilidade do hub intercontinental dependente do Brasil e do qual a existência da TAP depende. O presidente da Câmara do Porto não quis ou não foi capaz de perceber que vivemos tempos de ‘Tudo pelo hub, Nada contra o hub’.

*Evolução do Grupo TAP e das outras empresas do grupo
Para informação e deleite do leitor mais curioso publicamos a actualização a 2015 da evolução 2003/2015 do resultado líquido do exercício do Grupo TAP e das outras empresas do grupo.

Gráfico 4 – TAP SGPS - Resultado líquido do exercício
(€milhões)



Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais

A SPdH SA, conhecida pela marca Groundforce de serviços de assistência em terra, é um caso significativo, porque
-inverte uma sucessão insustentável de prejuízos no seguimento de privatização imposta por regras da União Europeia a qual implica um despedimento colectivo em Faro e alteração radical do regime de trabalho herdado do tempo em que esta actividade era um departamento da TAP.

Gráfico 5 – SPdH SA - Resultado líquido do exercício
(€milhões)



Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais

Sobre a Manutenção Brasil continuamos a ignorar até que ponto

-a sua aquisição pela TAP foi parte do generoso acordo bilateral de tráfego aéreo entre Portugal e Brasil, que dá à TAP acesso a número aparentemente ilimitado de aeroportos brasileiros … em troca de Lisboa e pouco mais,

-os prejuízos anuais resultam de limitação local ao impor de boas regras de gestão pela TAP.
Certo é o ano de 2015 desmentir o anunciado equilíbrio de contas da Manutenção Brasil.

Gráfico 6 – Manutenção Brasil - Resultado líquido do exercício
(€milhões)



Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em Grupo TAP, relatórios anuais


A Bem da Nação

Lisboa 14 de Junho de 2014

Sérgio Palma Brito



Notas

(1)O Grupo TAP é formado em 2003. Por coerência contamos o resultado líquido da TAP SA desde 2003. No gráfico 3 contamos o resultado líquido desde 2001, primeiro ano em que gere a TAP.

(2)Não adianta falar da imputação em 2015 de €vv milhões da Venezuela. Prejuízo em 2015, foram contabilizados como lucro em exercícios anteriores.




Onde pode o diabo encontrar 33.000 unidades de Alojamento Local em Lisboa?

O discurso bipolar sobre o sucesso do turismo em Lisboa ou o desastre a que conduz entrou em impasse de onde não sairá. Urgente e pertinente é o debate, com base analítica sólida e espirito aberto, sobre as exigências do sucesso do turismo em Lisboa e arredores e o seu contributo para a economia, sociedade e cultura. É neste debate que queremos participar.

*Factores que ofuscam debate das exigências do sucesso do turismo em Lisboa
O debate, com bases analíticas sólidas, sobre as exigências do sucesso do turismo está a ser ofuscado e dificultado pela opinião mainstream, em discurso light que ignora ou deforma a realidade na exploração de temas populistas do tipo ‘excesso de turistas e de hotéis’, ‘plastificação da cidade e perda de identidade’ & similares.

Este debate está também a ser enviesado pela defesa de interesses corporativos da parte mais conservadora da indústria da hotelaria, que vê na concorrência do alojamento local a fonte maior dos seus problemas. A hotelaria é decisiva para o sucesso do turismo em Lisboa, mas há alojamento turístico para além da hotelaria e a sua regulação deve visar a criação de valo económico, social e cultural e não proteger esses interesses. Voltaremos ao assunto.

*Os 33.000 “homes and apartments” da Airbnb em Lisboa
Quando a Bloomberg ecoa “33.000 homes and apartments” da Airbnb em Lisboa, muita gente acredita piamente e daí parte para as duas ‘tartes à la crème” que denunciamos: i) discurso mainstream sem base analítica e enviesado, ii) excesso de oferta e concorrência maligna à hotelaria. Isto desfoca-nos do que é essencial.

O gráfico ilustra a evolução do número de Alojamentos Familiares (INE, Recenseamentos da Habitação) de utilização “residência permanente e secundária” e “vagos”, numa amostra de dezanove freguesias ‘antigas’ da urbe histórica de Lisboa. Assim:

-em 2011 e antes do arranque do crescimento do Alojamento Local em Lisboa, nestas dezanove freguesias, temos 3.375 Alojamentos Familiares de residência secundária e 7.524 vagos, num total de 10.899 unidades.

Gráfico 1 – Utilização de alojamentos familiares em 19 freguesias da urbe histórica
(unidades)

Fonte: Elaboração própria, com base em INE, Recenseamentos da Habitação

Em 2011, há 323.076 Alojamentos Familiares no concelho de Lisboa (Recenseamento da Habitação). O gráfico 2 ilustra a sua repartição entre Residência Principal e Secundária e Vagos. Estas duas utilizações totalizam 84.618 alojamentos.

Em teoria, há lugar para os 33.000 da Airbnb. Na realidade não é assim. Como ilustraremos em futuro post, a maior parte fica longe da urbe histórica, onde se concentra o alojamento local. 

Por exemplo, não parece haver muito alojamento local na freguesia de S. Domingos de Benfica, com os seus 5.000 apartamentos de Residência Secundária e Vagos.

Gráfico 2 – Repartição dos alojamentos familiares de Lisboa por utilização (2011)
(Unidades)

Fonte: Elaboração própria, com base em INE, Recenseamentos da Habitação

Chegado aqui e com a maior abertura de espírito (podemos estar errados), pedimos resposta a uma pergunta:

-onde diabo na cidade de Lisboa pode haver 33.000 unidades de Alojamento Local na Airbnb?


A Bem da Nação

Lisboa 8 de Junho de 2016

Sérgio Palma Brito


Portugal no mercado emissor do Reino Unido – Rankings 2015

O Office of National Statistics acaba de publicar os Travel Trends 2015 com informação detalhada sobre o mercado emissor do Reino Unido.
Brevemente publicaremos análise macro sobre Portugal no mercado do Reino Unido.

Para aguçar o apetite publicamos dois rankings em que Portugal tem bom posicionamento. Com efeito,

-em número de turistas, Portugal é sexto, depois dos ‘quatro grandes’ e do caso especial da Republica da Irlanda,

-em receita, Portugal é quinto, depois dos ‘quatro grandes’ porque os residentes no Reino Unido vão frequentemente à Irlanda em viagens curtas e com menos gastos,

-será difícil Portugal ultrapassar os EUA em número de turistas e a Itália em despesa.

A performance da Grécia em receitas é de registar.

Figure 15: Top 10 countries visited by UK residents for at least 1 night, 2015



Source: International Passenger Survey (IPS) - Office for National Statistics


Figure 16: Top 10 countries by expenditure of UK residents whilst visiting abroad for at least 1 night, 2015

Source: International Passenger Survey (IPS) - Office for National Statistics



A Bem da Nação

Lisboa 23 de Maio de 2016


Sérgio Palma Brito

Turismo em Lisboa e duas crónicas de Lucy Pepper

Este texto é suscitado por duas crónicas sobre o Turismo em Lisboa que Lucy Pepper acaba de publicar no Observador (1). Não saímos a terreiro para ‘defender’ o turismo em Lisboa contra os ‘ataques’ de uma cronista. A relação do turismo com a economia, sociedade e cultura em Lisboa exige atenção que não tem tido e suscita reacções da elite lisboeta que não facilitam a sua qualificação – é este o quadro em que nos situamos.

*Boom tipo bolha de sabão ou seguido de definhamento?
O crescimento do turismo em Lisboa data de 1998 e é estrutural a partir de 2004. As consequências e sequelas da crise de 2008/09 são incidentes conjunturais rapidamente ultrapassados, o que confirma a resiliência da procura/oferta do turismo em Lisboa. O mesmo acontece no Algarve com a crise de 1974/76.

O turismo em Lisboa é hoje uma realidade pujante e com potencial de crescimento. É evidente que uma fase de crescimento acelerado é limitada no tempo e pode ser interrompida por factores internos e externos de influência mais ou menos importante.

LP parece referir uma alteração negativa mais fundamental do turismo em Lisboa, mas a palavra boom seguida de crash (ou bolha de sabão) ou definhamento irreversível não é a maneira mais adequada para o efeito, porque pressupõe incapacidade de reacção da intervenção pública e iniciativa privada. A experiência mostra que crash ou definhamento estão sobretudo ligados à procura e não à oferta, e têm a ver com história, geografia e tecnologia.

Damos exemplos. Na década de 1950, a democratização do transporte aéreo pelo charter do package holiday transfere para o Mediterrâneo a procura já massificada de estadias estivais nos seaside resorts dos mares do Norte. Em consequência estes entram em declínio acentuado, com destaque para os do Reino Unido que eram dos mais importantes do continente. A sua bonança começa em 1750 quando o happening social das termas de Bath se transfere para a praia de Brighton, com benefício do patrocínio do Príncipe Regente e futuro Rei Jorge IV. Depois a procura cresce com o acesso por caminho-de-ferro e estão prósperos antes da II Grande Guerra. É caso para dizer que com ferro mata, com ferro morre.

A urbanização da Junqueira data do início do século XVIII e as casas apalaçadas que ainda lá vemos hoje são edificadas à beira mar, quando a actual Rua da Junqueira era praia. No virar dos séculos XVIII/XIX Rudders descreve o banho popular na então praia da Junqueira. Já no século XIX, a elite instala-se na praia de Pedrouços e depois em Caxias. Este progressivo afastamento de Lisboa, conhece uma ruptura quando a corte começa a frequentar Cascais e, sobretudo, quando os promotores da urbanização turística do Monte Estoril abrem a ligação ferroviária a Belém e depois ao Cais do Sodré. Um século depois, o happening da ‘Costa do Sol portuguesa’ transfere-se para o Algarve.

*Implantação espacial e integração do turismo na urbe em transformação
Desenvolver o turismo implica receber milhões de pessoas. Foi assim no Algarve e está a ser assim em Lisboa. O modelo para analisar esse processo é simples e passa por qualificar a resposta ao dilema entre conservar e desenvolver. 

Desconheço o equivalente urbano do Design with nature de Ian Mc Harg para áreas de resort como o Algarve, pelo que no caso de Lisboa me limito a análise e conceptualização próprias.

Sempre abordei o turismo segundo o espírito que descobri recentemente ser o de Nova Iorque [sublinhado meu]: “As New York City’s fastest-growing industry, tourism has been a stabilizing force for the City during the economic downturn. Our visitors are not only part of the backbone of our City’s economy, they also add to the excitement, energy and diversity of NYC.”.

Em Lisboa ainda falta catalizar a mais-valia dos turistas para o “excitement, energy and diversity” da cidade.

Como acontece no Algarve (2), o turismo ocupa pequena parte da cidade de Lisboa (não calculei, mas não deve atingir 30%). A cidade no seu conjunto e estes 30% em particular são espaço de transformações económicas, sociais e culturais prévias ao crescimento do turismo, mas que este influencia.

LP refere “O turismo está a estragar Lisboa”, “Lisboa está a ceder ao apodrecimento turístico”, “plastificação em curso em Lisboa”, “Logo que se tenha Disney-Sardinificado um pouco mais” ou “o apodrecimento turístico já começou”, opiniões que respeito. 

Não ‘ataco’ LP em ‘defesa’ do turismo por causa destas opiniões. Quando LP utiliza “estragar” e não ‘transformar’ está a degradar esse bem precioso que é a sua opinião sobre o turismo em Lisboa.

Sem piadas e com mais modéstia do que a mostrada por LP, digo que estas opiniões dificultam a observação da big picture: a nova dinâmica da transformação da urbe turística pela procura de turismo. Podem utilizar todos os adjectivos pejorativos do dicionário para maldizer o turismo de Lisboa que eu pouco me importo. Não podem é ignorar a análise séria destas transformações de modo a contribuir para qualificar a relação forte e positiva entre o turismo e a cidade que o acolhe.

Aposto dobrado contra singelo que, a exemplo do Algarve, o turismo vai contribuir para inverter a diminuição da população residente na cidade no seu conjunto e até nos espaços habitáveis da urbe turística.

*Identidade de Lisboa e procura de autenticidade pelos turistas
A tão falada ‘descaracterização’ de Lisboa tem a ver com duas noções de quase impossível consensualização, mas que têm de ser abordadas com cultura e instrumentos técnicos, e não com opiniões ligeiras de comentadores de ‘largo espectro’.

A identidade é nossa (na vida empresarial é identity ou corporate culture) e existe independentemente do turismo. Não é consensual, mas é possível e necessário fazer um esforço para ‘identificar a identidade’. Já tivemos a Política do Bom Gosto de António Ferro e, no tempo, até se compreendia. Hoje é preciso muito mais. A título de exemplo, recuso que a nossa identidade integre a falta de limpeza, a vida nocturna degradada e a incapacidade em regular o turismo, entre outros.

A autenticidade põe um problema diferente, porque existe na mente, coração e espírito dos turistas (é o equivalente da brand image da vida empresarial). A autenticidade escapa-nos em grande parte, mas é passível de alguma influência por ‘tourism destination branding’ necessariamente relacionado com as vendas. 

Este é um dos espaços de acção da Associação Turismo Lisboa (ATL).

É neste quadro que devemos ler a singular opinião de LP sobre os turistas:

-na crónica do dia 3 de Abril, “a maior parte dos turistas não percebem a diferença entre uma bela posta de bacalhau e uma má fatia de queijo”,

-na de 10 de Abril, “Embora o turista pense que sabe o que quer e o que é bom, a verdade é que o turista não sabe o que é bom nem autêntico, nem precisa de saber ou de dar importância a isso.”.

A análise dos inquéritos que a ATL realiza mostra um turista muito diferente. De novo, LP não pode degradar a sua opinião a este ponto.

De novo na crónica de 10 de Abril,

-“O turista é um animal muito seletivo e esquisito, e para manter o seu interesse, uma cidade tem de ter tudo, ou, falhando isso, pelo menos uma cadeia de hotéis de 5 estrelas perto de uma praia com sol e calor garantidos durante oito meses do ano.”.

Afinal o turista já é ‘selectivo’ e quanto ao resto da afirmação … fiquei speechless. A que cidade se refere LP?

*Turismo e outras actividades económicas
O essencial da crónica de 10 de Abril gira em torno de tema pacífico e LP arromba um portão escancarado. Citamos: “Se Lisboa não se concentrar em outras actividades para além do turismo, o que restará de Lisboa quando os turistas a tiverem abandonado?”, “Nada tenho contra uma cidade cheia, vibrante e próspera. […] Só que essa cidade tem de ser vibrante e próspera com actividades para além do turismo.”.

Já vimos o “turistas a tiverem abandonado” e falta o essencial. Desde o início do século, o turismo é a actividade económica que mais se desenvolve em Lisboa. Ninguém defende que seja a única e exclusiva, mas também ninguém pensa competir aos empresários do turismo promover novas actividades em Lisboa, com excepções a confirmar a regra.

O turismo gera cosmopolitismo e massa critica em notoriedade internacional, transporte aéreo, alojamento e serviços cosmopolitas que facilitam outras actividades. O caso mais evidente é tudo o que se passa em volta de empreendedorismo e startups. O caso menos falado mas relevante é o da instalação em Lisboa de centros de apoio a clientes de empresas estrangeiras e que geram exportação de serviços.

Sobre ‘as lojas que desaparecem’, é fascinante como praticamente ninguém se interroga sobre ‘como tirar mais partido da procura dos turistas’ e o pastel de bacalhau com queijo da Serra ser assunto central na crítica ao turismo. A mais recente crónica de José Diogo Quintela é elucidativa sobre a tipologia das lojas.

*Economia da noite em Lisboa
A falta pode ser minha, mas nunca vi ou li referência à economia da noite em Lisboa – sugiro ao leitor googlar ‘night economy’ e ver a informação que obtém. A economia da noite é a actividade económica cuja operação e implantação na urbe lisboeta mais atenta contra os direitos mais básicos dos habitantes da cidade.

Perante a gravidade da situação a que se chegou, abundam acções dispersas mas ninguém a encara a night economy à luz da regulação do dilema entre conservar/desenvolver.

LP não refere uma das maiores ameaças ao turismo em Lisboa: a atracção massiva dos lager touts (googlar) das suburbias das cidades do Norte da Europa por uma night economy sem regras nem regulação. Neste campo, é útil conhecer como

-a desregulada e dominante economia da noite degradou o eixo que vai do Montechoro à Oura, em Albufeira, com as forças vivas da cidade e o município a tolerar que tal acontecesse.

*Turismo – exigências do sucesso
Hoje, o sucesso do Turismo em Lisboa exige governança pelo Município dos factores críticos de sucesso (3).

Importa consensualizar Visão e Orientações Estratégicas simples e realistas sobre o Turismo na Cidade, para alinhar e motivar os actores envolvidos.
Há que ultrapassar preconceitos e falta de informação sobre o turismo e temas importantes, ainda proscritos por opinião pública que inspira temor à política e dificulta eficiência na acção: quantidade de visitantes, imobiliária turística, alojamento paralelo, Visto Dourado, entre outros.

A imagem de Lisboa é mais diversificada do que a do destino turístico. A exemplo de outras cidades, o turismo é o mais importante comunicador da imagem da cidade. Esta sinergia não é aproveitada como devido.

Cabe ao Município intervir forte na regeneração urbana no Centro Histórico, indispensável ao sucesso do turismo, à cidade atrair pessoas e actividades e realizar a ambição de ser Start up, Creative e Knowledge City (na expressão da CML).

O sucesso do destino Lisboa depende de duas iniciativas do Município. A primeira é cuidar da cidade em aspectos que são parte da experiência de quem visita e benefício para quem nela reside.

A segunda exclui práticas vigentes com consequências graves para o turismo na cidade, e consiste em definir e implementar regulação forte da oferta pública com medidas de que citamos as mais evidentes: segurança e limpeza em função da utilização turística; aparência das actividades coerente com semântica da área; esplanadas e ambulantes respeitam usufruto do espaço público; tolerância zero para horários e ruído nocturno com certificação da segurança privada, botellon, beber na rua e outros excessos; WCs limpos a evitar o mau cheiro. Estas são críticas na origem das tensões entre turistas e habitantes e degradação da imagem do destino e da cidade de Barcelona. Evitar este desastre é responsabilidade da Governança municipal e não de abstracto ‘turismo’.


A Bem da Nação

Lisboa 11 de Abril de 2016

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)ver
-2016.04.03.Observador

O turismo está a estragar Lisboa (Tourist rot)

-2016.04.10.Lucy.Observador

Lisboa, não vendas a tua alma aos turistas (Lisbon, don’t sell your soul)
Os títulos em inglês não têm o conteúdo emocional dos em português.

(2)A superfície do Algarve é de 500.000 hectares e a do Baixo Algarve (sem a Serra) é de cerca de um terço. O solo urbano e turístico depois dos PDMs da década de 1990 é de 19.300 hectares e a parte do turismo ocupa parte de uma estrei franja do Litoral..

(3)Este texto é retirado de um artigo com o mesmo título publicado na Pensar XXI de Janeiro a Junho de 2015.


O turismo do Algarve cresceu e crescerá sem a TAP e daí não vem mal ao mundo

Post destinado a informar o cidadão interessado em conhecer a realidade da relação entre turismo do Algarve e a TAP. 

É também dedicado a todos os que no turismo do Algarve que têm vivido em paz com esta realidade, o que é puro realismo, e em especial aos que agora começaram aos pulos e berros só porque Rui Moreira decidiu espingardar contra a TAP, o que apenas aumenta a entropia do Universo.

*De 1970 até 2014
Entre 1970/2014 o turismo internacional do Algarve cresce e afirma-se sem o contributo da TAP (gráfico 1). A ‘transportadora aérea nacional’ que era suposto ‘garantir’ o apoio ao turismo do Algarve não apoiou no que era essencial: transportar turistas para a Região (1).

Não garantiu, não garante e não garantirá pela conjugação de três factores:

-a cultura empresarial elitista (hoje menos) e custos elevados de exploração impedem que seja competitiva no leisure market da Europa do Norte para uma área turística do Mediterrâneo como é o caso do Algarve,

-porque os operadores turísticos de package holiday cedo integram companhias charter in house e limitam a contratação fora,

-as companhias low cost que hoje dominam as rotas ponto a ponto da Europa têm custos unitários que lhes permitem ser rentáveis onde a TAP nunca será.

Gráfico 1 – Passageiros desembarcados no aeroporto de Faro por companhias nacionais e estrangeiras (1970/2014)
(milhares)

Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transportes

*Turismo do Algarve e TAP na crise de 1973/1976
Ainda o turismo do Algarve anda de calças curtas e já enfrenta a primeira crise da procura (gráfico 2):

-em 1973 não cresce pelo primeiro choque do preço do petróleo,

-em entre 1974/1976 é a queda da procura provocada pela situação revolucionária no País.

Gráfico 2 – Passageiros no aeroporto de Faro
(unidades)

Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transportes e informação da então Direcção Geral da Aeronáutica Civil

Passada esta fase, a partir de 1977 o turismo do Algarve regressa ao crescimento. O Algarve vive um ‘momento de verdade’ e a procura turística mostra uma resiliência forte.

Neste momento de verdade quando a procura cai e há problemas graves, a TAP nacionalizada, ‘nossa’ e que ‘garante’ e tal e coiso falha (gráfico 3):

-a partir de 1976, a recuperação do tráfego aéreo é assegurada pelas companhias estrangeiras e o tráfego das companhias nacionais (TAP) estagna.

Gráfico 3 – Passageiros desembarcados no aeroporto de Faro por companhias nacionais e estrangeiras (1970/1983)
(milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em INE – Estatísticas dos Transportes

*Domínio dos operadores turísticos implica domínio do charter
No modelo dominante do operador turístico de package holiday a companhia charter depende da procura dos operadores e, quando integrada, do operador a que pertence. Importa esclarecer um equívoco:

-não há concorrência e/ou alternativa exclusiva entre companhia charter e low cost,

-são as pessoas que escolhem comprar pacotes de férias ou tratar das suas estadias directamente com os fornecedores de cada serviço (2).
Na década de oitenta domina o transporte aéreo por companhia charter (gráfico 4). 

Desde há anos, a realidade que o gráfico 4 ilustra mudou radicalmente (3).

Gráfico 4 – Quando o turismo é o operador e o operador é o turismo
(milhares)

Fonte: Elaboração própria com base em informação da Direcção Geral da Aeronáutica Civil
Nota – Não inclui o então designado Tráfego Doméstico, hoje Tráfego Interior, na ocorrência a rota Lisboa/Faro.


A Bem da Nação

Lisboa 1 de Abril de 2016

Sérgio Palma Brito


Notas

(1)Não ignoro, antes registo e em muitos casos estou grato a todos os que na TAP sempre apoiaram a iniciativa privada do Algarve no que estava ao seu alcance. Bem hajam.

(2)É um exemplo da opção entre bundling e unbundling de serviços – nos restaurantes, é optar ente menu prefixado (bundled) ou escolher na ementa (unbundled).

(3)Na altura não havia internet, smartphones nem nada disso. Uma conversa com um jovem quadro da então DGAC (hoje o gestor Rui Veres) e o eficiente senhor Spínola passava a dar-nos uma fotocópia A3 com informação a que hoje não temos acesso. Nada para a progresso.


População, alojamento e turismo de Lisboa, a urbe antes do turismo

O actual surto de crescimento do turismo em Lisboa tem início em 2004 e a sua implantação na urbe só começa a ser notada no virar das décadas de 2000/2010.

As actividades turísticas tendem a concentrar-se na ‘urbe histórica’ e exigem a compatibilização do dilema ‘conservar e desenvolver’ em contexto urbano. Se queremos qualificar as respostas a este dilema, temos de conhecer as dinâmicas económicas sociais e culturais que ocorrem nesta urbe histórica de Lisboa nas últimas dezenas de anos.

Este post limita-se a divulgar a evolução de dois processos que estão na base do conhecimento destas dinâmicas e por elas são influenciados: a evolução da população residente desde 1960 e a utilização dos alojamentos familiares desde 1981.

Esta evolução deve ter em conta o crescimento de passageiros no aeroporto de Lisboa, já descrito em post anterior (1), e factores ligados à evolução da urbe histórica, que apresentaremos nos próximos dias.

Num País onde há muita opinião e pouca quantificação é sempre oportuno recordar Joel Serrão: “Ora, como é evidente, a síntese não é possível onde a análise mal principiou”.


*Uma extensa faixa de ‘urbe histórica’ e a amostra
Sem museu, monumento ou atracção que a afirmem como destino turístico, a diferença da oferta de turismo de Lisboa reside na extensa faixa de urbe histórica que se estende sobre colinas e ao longo do Tejo, nos doze quilómetros de Belém ao Beato.

Desta faixa, analisamos uma amostra de dezassete freguesias das três zonas turísticas do Centro Histórico da Cidade (2).

Temos provas dadas de não cair na esparrela do conhecido dilema do ‘a favor ou contra o turismo’ (3). Este e outros posts não são nem libelo acusatório nem defesa cega do turismo em Lisboa. São esforço que visa ajudar o leitor a pensar com a sua cabeça.

*População residente
Entre 1960/2011, Lisboa perde 32% da população, mas as 17 freguesias perdem 72%, passando de 121 mil a 34 mil habitantes (gráficos 1 e 2). Esta evolução e a diferença com a do concelho de Lisboa são particularmente relevantes para a nossa análise.

Esta perda de 87 mil habitantes ocorre antes do boom da oferta turística e a sua explicação exige investigação que nos informe sobre o que está em causa: qualificar a resposta publica e privada à compatibilização do dilema ‘conservar e desenvolver’.

Gráfico 1 – População residente no concelho de Lisboa e nas 17 freguesias
(milhares)

Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da População e Habitação

Gráfico 2 – Evolução da população residente em índice
(1960=100)

Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da População e Habitação

Com excepção da década atípica de 1970, o ritmo da perda de população residente diminui ao longo do tempo, de 34 mil nos anos 60 a 5 mil nos anos 2000 (gráfico 3).

O aumento da população residente no País durante a década de 1960 está ligado ao regresso dos portugueses que viviam nas colónias. Ignoramos se nesta zona há outro factor que explique a diminuição da população.

Gráfico 3 – Variação da população residente nas 17 fregesias por décadas
(milhares)

Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da População e Habitação

*Alojamento
Começamos por um ponto prévio: o número total de alojamentos familiares nas 17 freguesias é praticamente idêntico em 1981 e 2011, mas varia em 1991 e 2001 (gráfico 4). Ignoramos a explicação, mas admitimos que em 1991 e 2001 tenha havido menos rigor numa contagem de alojamentos que pode não ser fácil em edifícios vetustos e degradados. O essencial é podermos comparar os números de 1981 e 2011.

Gráfico 4 – Número total de alojamentos familiares nas 17 freguesias
(milhares)

Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da População e Habitação

Entre 1981/2011, Lisboa perde 6% de apartamentos de residência principal, mas as 17 freguesias perdem 37%, de 25.876 para 16.239.

Em 2011, quando a implantação da oferta de turismo na urbe começa a ter significado,

-nas 17 freguesias da amostra da ‘urbe histórica’, os 27.138 apartamentos repartem-se em 59.8% de residência principal, 12.4% de residência secundária (3.375 unidades) e 27.7% (7.524 unidades).

-por outras palavras, na primeira linha de utilização turística estão 10.899 alojamentos de residência secundária e vagos (3375+7524=10899).

Gráfico 5 – Numero de alojamentos por utilização
(unidades)

Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da População e Habitação

Sobre a variação da utilização dos alojamentos por décadas (gráfico 6):

-o ritmo de descida do número de alojamentos de residência principal diminui, de 5.492 nos anos 80 a 1.145 nos anos 2000,

-o número de apartamentos vagos aumenta ma década de 1990 (de 1.722 para 3.367) e diminui na década de 2000 (para 995).

Gráfico 6 – Variação da utilização dos alojamentos por décadas
(unidades)

Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da População e Habitação

*Habitantes por alojamento de residência principal
O número de habitantes por alojamento de residência principal diminui ao longo do tempo. A análise desta evolução está fora do âmbito do nosso trabalho porque exige pesquiza no campo, mas comparamos:

-no Algarve e no contexto de rápido aumento da população residente e do numero de alojamentos de residência principal, o número de habitantes por alojamento de residência principal também diminui,

-por outras palavras, dinamismo urbano e retrocesso na urbe conduzem à mesma evolução.

Gráfico 7 – Número de residentes por alojamento de residência principal
(unidades)

Fonte: Elaboração própria com base em INE, Recenseamentos da População e Habitação

*Uma das diferenças de Lisboa
O desenvolvimento do turismo em Lisboa a partir do fim da primeira metade da década de 2000 está na origem de uma dinâmica urbana que acontece numa vasta urbe histórica que perde população há meio século e dispõe de parque habitacional degradado e onde, apenas em 17 freguesias, há 10.899 alojamentos de residência secundária e vagos abertos a reabilitação urbana e utilização turística.

Esta é uma das diferenças do turismo em Lisboa, assim sejamos nós capazes de a valorizar.



A Bem da Nação

Lisboa 31 de Março de 2016


Sérgio Palma Brito



Notas
(1)Ver Como cresceu o número de passageiros no aeroporto de Lisboa? em


(2)As dezassete freguesias são: Castelo, Encarnação, Graça, Madalena, Sacramento, Santa Catarina, Santa Justa, Santo Estêvão, Santos-o-Velho, São Cristóvão e São Lourenço, São Miguel, São Nicolau, São Paulo, São Vicente de Fora, Sé, Socorro, Mártires. Centro Histórico da Cidade é definido pela CML. Zonas turísticas’ é uma noção do Plano Estratégico para o Turismo na Região de Lisboa 2015-2019, da Associação Turismo Lisboa.

(3)Para além de muitas outras intervenções, lembro o livro Território e Turismo no Algarve, acessível em

http://www.ciitt.ualg.pt/01/Territorio_e_Turismo_SPB.pdf