O frustrado Novo Aeroporto de Lisboa para hub TAP strikes again

No Expresso semanal, Carlos Matias Ramos na sua qualidade de ex-Bastonário da Ordem dos Engenheiros recupera o frustrado Novo Aeroporto de Lisboa para hub TAP com um texto de opinião “As (in)decisões sobre o novo aeroporto de Lisboa” (1). O autor e o jornal justificam leitura crítica do texto, sempre A Bem da Nação.

*O erro de base no processo de decisão sobre o NAL
Sem recuar aos trabalhos preparatórios do IV Plano de Fomento para 1974/1979, o processo de decisão sobre o NAL nunca incluiu a Proposta Zero: avaliar a sua continuidade na Portela. Todo o debate se concentrou entre Ota/Rio Frio e, posteriormente, em Benavente.

Em 2015, a proposta Portela+Montijo é a versão actual da Proposta Zero, em alternativa a Benavente. Não é nem uma fantasia nem uma indecisão. É o que deve ser feito e é feito em circunstâncias diferentes das de 2005/08.

*O erro de fundo no debate sobre o NAL
O processo de decisão sobre o NAL assenta num erro de fundo:

-dar prioridade ao hub intercontinental da TAP e ignorar o que um aeroporto de proximidade como a Portela representa para a competitividade da oferta de turismo de Lisboa.

Em Dezembro de 2016, Carlos Matias Ramos insiste neste erro:

-“por forma a desempenhar, de forma atractiva, a sua função de hub no transporte de passageiros e de mercadorias, designadamente nas ligações Europa-Atlântico Sul e que, em complemento, fizesse cumprir as disposições contratuais existentes”.

Ao errar não tem em conta que o hub inclui Africa desde sempre, América do Norte desde há meses e, provavelmente a China num próximo futuro. Mas sobretudo não tem em conta o crescimento do turismo em Lisboa.

*Dois aeroportos em Lisboa – solução a excluir ou a retomar?
Carlos Matias Ramos elimina a solução Portela+Montijo com base do estudo da Aéroports de Paris (ADP), que esta e outras soluções similares “não oferecem benefícios, não permitem o prolongamento da vida útil da Portela e que a adopção de soluções baseadas em dois aeroportos é indesejável do ponto de vista comercial e de custos.”.

Há dois aspectos a ter em conta:

-este estudo não considerou o custo que o NAL de Benavente representaria para a oferta de turismo de Lisboa,

-dois aeroportos terão mesmo mais custos fixos e variáveis do que um, quando é possível a sua especialização?

Talvez não e tal deve ser estudado. Com efeito,

-a evolução do tráfego aéreo em Lisboa marca uma robusta diferença com o passado (gráficos 1 e 2),

-Montijo será o aeroporto de rotas ponto a ponto (sobretudo intra-europeias mas também intercontinentais), desde que a ligação fluvial a Lisboa seja competitiva,

-Portela será sobretudo o aeroporto da operação eficiente do ‘hub alargado da TAP”,

-esta especialização permite uma oferta adequada a cada tipo de tráfego.

*Evolução do tráfego no aeroporto de Lisboa
O gráfico 1 ilustra o tráfego das LCC mais importantes (Ryanair, easyJet, Transavia e Vueling), da TAP e do aeroporto. Destacamos

-divergência de crescimento entre o tráfego das quatro LCC mais importantes e o tráfego da TAP,

-o novo e inesperado ritmo de crescimento a partir de 2014.

Gráfico 1 – Lisboa: passageiros do aeroporto, TAP e quatro LCC
(milhares)

Fonte: Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA (2001/13), e ANAC mais informação do mercado, de 2014 ao valor estimado de 2016. Ver Nota (8).

O gráfico 2 ilustra os maiores contributos de companhias aéreas para o crescimento do tráfego no aeroporto de Lisboa entre 2001/16 repartido pelos dois períodos considerados antes:

-entre 2001/16, o trafego da TAP o das quatro LCC crescem cerca de cinco milhões de passageiros cada,

-a diferença reside no período entre 2014 a 2016, quando a TAP apenas cresce cerca de um milhão de passageiros e as quatro LCC cerca de 3.5 milhões, com forte contributo da Ryanair, a operar em Lisboa desde 2014.

Gráfico 2 – Companhias aéreas no crescimento do aeroporto de Lisboa
(milhares)


Fonte: Elaboração própria com base em informação ANA (2001/13), e ANAC mais informação do mercado, de 2014 ao valor estimado de 2016 (8).

Estes dados justificam a revisão da proposta da empresa dos Aéroports de Paris.

*Tráfego do aeroporto no futuro
Na notícia sobre o valor a pagar às Forças Armadas pela cedência da base do Montijo, ficamos a saber que “a decisão do ministro do Planeamento e das Infra-estruturas, Pedro Marques, deverá ser tomada no início do próximo ano [2017]”. 

Mais,

-“estará dependente da conclusão de um estudo sobre a procura e evolução do tráfego que está a ser ultimado sob a responsabilidade da Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC).” (2).

Passamos sobre a avaliação da capacidade da actual ANAC para elaborar um estudo deste tipo. Apenas recordamos cenas da vida portuguesa:

-a quando do estudo da Aéroports de Paris não foi previsto o crescimento do tráfego das companhias low cost em Lisboa,

-em meados de 2013, ninguém previa o surto de crescimento de tráfego … que se inicia em 2014.

*Quanto custa e para que serve o Novo Aeroporto de Lisboa?
No auge da discussão sobre Ota/Benavente há um programa Prós e Contras só de engenheiros. Era Bastonário Fernando Silveira Ramos e estava presente o que de melhor há na engenharia em Portugal.

Durante as três horas e tal de debate, nenhum dos engenheiros presentes formulou e ainda menos respondeu à pergunta crucial:

-para que serve e quanto custa o Novo Aeroporto de Lisboa.

Em Dezembro de 2016, a opinião de Carlos Matias Ramos respeita esta má tradição (3). A alternativa a Portela+Montijo é o NAL de Benavente, mas para que serve e quanto custa? Como vimos, o autor apenas refere a “função de hub” e não tem em conta o tráfego das LCC.

*Uma entidade
Carlos Matias Ramos tem razão quando defende “uma entidade do Estado que promovesse, em permanência e independentemente de cada Governo, uma reflexão estratégica sobre as implicações das soluções possíveis para essas infra-estruturas”.

Acontece que essa instituição existe. É a ANAC que, para além da função de regulação tem a atribuição de

-“a) Coadjuvar o Governo, a pedido deste ou por iniciativa própria, na definição das linhas estratégicas e de políticas gerais e sectoriais cuja implementação se reflicta directa ou indirectamente no sector da aviação civil, elaborando projectos de legislação, colaborando na preparação de diplomas legais e regulamentares, internacionais, europeus e nacionais, assim como na preparação e condução de procedimentos pré -contratuais no sector da aviação civil”.” (4).

Esta função não é cabalmente exercida, mas a prioridade passa por alterar este estado de coisas.


A Bem da Nação

Lisboa 5 de Dezembro de 2016

Sérgio Palma Brito

Notas

(1)Ver2016.12.03.Expresso.MontijoBastonário

(2)Ver 2016.12.03 Expresso

(3)Declaração de interesses. Fui expulso do IST no final do terceiro ano, de que fiz duas das quatro cadeiras. Não sou um frustrado por não ter completado o curso. Posso criticar esta lacuna dos engenheiros como critico as dos economistas, que sou. No programa estavam bons amigos e muitos conhecidos.

(4)Estatutos da ANAC. Ver Decreto-Lei n.º 40/2015, diploma que aprova os estatutos da ANAC e entra em vigor no 1 de Abril 2015.



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